Introdução

Objetivo

Este texto é o primeiro de uma série de artigos e tutoriais sobre a construção de sites usando os padrões Web. A intenção primária desses textos é mostrar que o uso de tais padrões na criação de documentos hipertexto resulta em várias vantagens tanto para os desenvolvedores e produtores dos mesmos como para seus usuários finais. Os artigos vão focar basicamente a construção de sites utilizando HTML (XHTML, mais especificamente) e CSS, mostrando que é possível criar páginas acessíveis, bem estruturadas e válidas sem um esforço excessivo. Nesse sentido, os artigos serão direcionados à estruturação do conteúdo e à aplicação da camada de apresentação aos mesmos sem passar pela parte de criação visual. Obviamente a parte visual é importante; entretanto, para todos os efeitos, ela não pesa muito nas decisões sobre os padrões já que praticamente qualquer tipo de layout criado pode ser igualmente construído através dos padrões Web. Dessa forma, as partes sobre CSS serão voltadas mais para o entendimento do padrão aplicado à apresentação do que para o desenvolvimento da apresentação em si. Apesar disso, os artigos também trarão indicações de como usar o CSS na criação de estruturas visuais chamativas e interessantes.

Os artigos procurarão apresentar o assunto de forma que eles sirvam não só para aqueles com conhecimento e afinidade maiores na área mas também para qualquer pessoa interessada e com disposição para aprender. O único pré-requisito real é entender o que é HTML e como o mesmo funciona e é usado para a criação de sites. Sendo assim, os artigos serão mais voltados para o lado prático, embora também venham a apresentar uma parcela de conteúdo teórico sempre que necessário. Espero que eles sejam úteis para o leitor.

Uma história dos padrões Web

Antes de entrar no assunto propriamente dito é interessante pensar um pouco nas questões envolvidas. Para isto, um mergulho na história dos padrões Web e, na verdade, da própria Web em si é um bom ponto de partida.

Os primeiros pensamentos sobre o que viria a ser a Web surgiram em 1945 quando Vanevar Bush escreveu um artigo descrevendo um aparelho foto-eletro-mecânico chamado Memex (abreviação de memory extension) que poderia criar e seguir links entre documentos armazenados em microfichas. O artigo estava bem à frente do seu tempo e foi somente dezessete anos depois, em 1962, que alguma coisa similar começou a tomar forma. Nesse ano, Doug Engelbart prototipou uma aplicação chamada oNLine System capaz de criar e editar documentos interligados. (Para o propósito de tornar a aplicação mais acessível, ele também inventou o mouse.) Em 1965, Ted Nelson, em um dos seus trabalhos seminais, A File Structure for the Complex, the Changing and the Indeterminate, cunhou a palavra hipertexto para expressar essa categoria de documentos interligados. Dois anos depois, o primeiro sistema baseado em algumas de suas idéias foi criado.

Em 1980, os primeiros esforços na criação de uma estrutura real de informação baseada em documentos hipertextos começam quando Tim Berners-Lee, trabalhando para o CERN, desenvolveu uma aplicação capaz de criar e manipular nós entre documentos arbitrários. Cada nó possuia um título, um tipo, e uma lista de links bidirecionais. Mesmo com essa aplicação a idéia de uma estrutura hipertexto demorou mais nove anos para tomar forma. Em 1989, Tim Berners-Lee circulou uma proposta para o gerenciamento facilitado de informação baseado em documentos hipertextos. A proposta foi recirculada em 1990 e, somente então, Berners-Lee recebeu permissão para criar o sistema. Em outubro desse ano, Berners-Lee começou a escrever a aplicação e a chamou de WorldWideWeb. A aplicação era uma interface visual para a criação e exibição de documentos hipertexto suportando o modo WYSIWYG. Como base na linguagem SGML, Berners-Lee criou o HTML como forma de expressar os documentos estruturados. Ele também resolveu o problema da identificação dos documentos criando o esquema de endereçamento universal conhecido com URL. Em novembro, durante os testes da aplicação, entrou em funcionamento o primeiro servidor Web da história. No final daquele ano, a aplicação estava pronta para demonstração. A Web finalmente nascia.

A partir daí a Web evoluiu rapidamente. No ano seguinte à sua criação, 1991, a aplicação WWW foi disponibilizada para grupos limitados e começou a ser utilizada para aplicações reais. Os primeiros servidores Web externos ao CERN foram criados. A grande revolução, entretanto, veio em 1993, quando o primeiro navegador Web, o NCSA Mosaic, foi liberado para o público geral. Desenvolvido por Marc Andreessen, esse navegador tornou-se o precursor dos navegadores modernos e uma das aplicações mais conhecidas e usadas da Internet. No fim de 1993, o mundo toma conhecimento da Web por meio de várias matérias publicadas em grandes e prestigiosos jornais. Em 1994, a Mosaic Communications Corp. é fundada e o Netscape, o primeiro navegador comercial da história é disponibilizado. A Web é uma realidade.

Com a expansão da Web, as necessidades das pessoas e organizações cresceram também. Por exemplo, os primeiros navegadores, antes do Mosaic, suportavam apenas documentos textos. Em 1993, com a criação do Mosaic e alguns outros navegadores similares, o HTML incorporou também imagens. (Conta-se que Tim Berners-Lee reclamou da adição de imagens dizendo que o recurso seria usado para pornografia. Infelizmente, ele estava absolutamente certo.) Outros elementos foram adicionados também à especificação inicial criada por Berners-Lee para atender às demandas crescentes de estruturação de documentos. O HTML, inicialmente, era apenas uma aplicação do formato SGML, uma metalinguagem cujo propósito é criar linguagens de marcação de documentos. O SGML é muito poderoso e permite a fácil extensão das linguagens criadas com base no mesmo. Isso, por sua vez, permitiu o crescimento rápido do HTML pela adição desses novos elementos e atributos.

O crescimento da Web também trouxe seus problemas. No começo, os elementos contidos na linguagem HTML apenas definiam a estrutura básica de um documento, tais como cabeçalhos, listas, parágrafos, ênfase e similares. Não havia nada na linguagem em si que explicava com tais elementos deviam ser exibidos. Obviamente, cada implementação decidia como fazer isso da sua maneira. Assim, cabeçalhos eram exibidos em fontes maiores e negritados, as ênfases apareciam em itálico, os parágrafos eram separados por linhas em branco e assim por diante. Até aqui, não havia nenhum problema, já que a informação em si era preservada. O conteúdo era distintamente separado da apresentação e poderia ser visto em qualquer navegador sem inconvenientes. Entretanto, o desenvolvimento comercial dos navegadores e a necessidade destes de manter uma vantagem competitiva sobre os concorrentes levou à inclusão de elementos proprietários e/ou de apresentação nas implementações específicas. Elementos como font e center surgiram e as pessoas começaram a usar tais elementos gráficos no lugar dos elementos de estruturação. Assim, ao invés de usar o elemento h1, por exemplo, para a identificação do cabeçalho primário de documentos, as pessoas estavam usando o elemento font para forçar a exibição da maneira visual requerida. O resultado foi que o documento era bem exibido somente nos navegadores que suportavam tais elementos. Como cada navegador implementava seus conjunto de elementos especiais, os truques de apresentação para enganar os renderizadores se tornaram coisa comum, aumentando o tamanho e a falta de estruturação dos documentos e reduzindo o HTML a uma confusão de elementos despadronizados. Nessa época começou a Grande Guerra dos Navegadores que durou vários anos. Qualquer pessoa que tenha lidado com HTML na época poderá atestar a dificuldade de conseguir que um documento qualquer aparecesse bem em todos os navegadores em uso então.

Em 1994, para lidar com essas questões, o Word Wide Web Consortium (W3C) foi criado. Essa organização tem como objetivo guiar a criação de padrões para a utilização em documentos Web. Obviamente, nesse momento a situação já era caótica e mesmo apesar do esforço desenvolvido pela organização nos últimos anos a situação hoje também ainda está longe de ser perfeita. Ainda assim, se o W3C não existisse, hoje seria impossível criar documentos que renderizam de maneira mais ou menos similar nos vários navegadores e sistemas atuais.

O esforço de padronização do HTML, logo depois liderado pelo W3C, começou também em 1994. Uma especificação inicial para a versão 2.0, incluindo muitos dos elementos proprietários e outros necessários, foi criada. Essa especificação foi a primeira a apresentar elementos para formulários e suporte a imagens mapeadas. A especificação foi desenvolvida, transformada em uma RFC e finalmente aprovada no final de 1995. Por esse tempo, a maioria dos navegadores existentes a suportava quase que inteiramente. Essa especificação define as capacidades básicas da maioria dos navegadores em existência hoje.

Enquanto a especificação 2.0 era aprovada, a discussão sobre a expansão do HTML continuava firme da comunidade de usuários do mesmo. No final de 1993, houve uma proposta para o HTML+ que seria um superconjunto do HTML para permitir sua integração gradual nos navegadores de então. A proposta nunca tornou-se uma realidade e transformou-se, em 1995, na proposta para o HTML 3.0. A especificação 3.0 introduzia elementos como tabelas, fluxo do texto ao redor de imagens e a exibição de equações matemáticas. Embora fosse compatível com o HTML 2.0, ela era tão complexa e abrangente que a sua adoção provou-se uma esforço impossível na época e ela eventualmente expirou.

Enquanto a especificação 3.0 estava sendo discutida, os navegadores continuavam a introduzir novos elementos baseados na mesma embora não a implementassem completamente. Para lidar com essa situação, o W3C considerou tornar essas inclusões uma nova especificação para impedir a degradação do padrão. Em 1996, a especificação 3.2 foi anunciada, sendo constituída de várias extensões propostas para a especificação 2.0, algumas características da versão 3.0 já implementadas na época, e um série de atributos proprietários existentes em vários dos navegadores existentes no momento. Essa especificação tornou-se a substituição de facto do HTML 2.0, tanto para os criadores dos navegadores quanto para os criadores de documentos.

À medida que a especificação 3.2 era adotada, o trabalho começou na especificação 4.0. Já no meio de 1996, um rascunho experimental da nova versão apareceu sem muito anúncio no site do W3C. Muitas das capacidades em discussão nas outras especificações, como folhas de estilo, linguagens de scripting, internacionalização e outras extensões foram incluídas na mesma. Sendo mais madura, a especificação demorou mais tempo para ser desenvolvida e só se tornou uma padrão reconhecido no meio de 1999. Infelizmente, ao contrário das especificações anteriores, ela não foi implementada satisfatoriamente nos navegadores e até o presente momento muitas de suas características ainda não são totalmente suportadas nos mecanismos de renderização desses navegadores.

O avanço do HTML e a incorporação de muitos elementos de apresentação aumentaram a complexidade e a dificuldade na criação de documentos estruturados, negando o próprio objetivo do padrão. Para resolver essas questões, duas especificações surgiram em épocas distintas atacando problemas diferentes das implementações já existentes. Essas novas especificações foram o CSS e o XHTML.

Em 1995, os primeiros rascunhos de uma nova especificação de apresentação, o CSS, foram anunciados. O objetivo primário da especificação era separar novamente a estrutura do documento da forma de renderização, como inicialmente intencionado pela linguagem HTML. Os documentos HTML seriam novamente reduzidos a carregar o conteúdo do documento e somente fariam referência a um outro documento, que usaria CSS, para especificar a forma como o documento HTML seria exibido. Em meados de 1996 a primeira especificação CSS tornou-se uma recomendação do W3C. A versão 2 da mesma tornou-se uma recomendação no meio de 1998. A exemplo da especificação HTML 4.0, as especificações CSS foram implementadas de maneira incompleta nos navegadores e até o dia de hoje o suporte às mesmas é relativamente arbitrário.

Em 1998, foi decidido pelas organizações por trás do HTML que a especificação precisava ser repensada. A decisão foi recriá-la como uma aplicação do XML, outra metalinguagem criada a partir do SGML, mas com regras mais estritas. Apesar dessas regras rigorosas, o XML permite que a extensão dos documentos seja feita de maneira mais fácil através de espaços de nomes que eliminam conflitos entre formatos diferentes. A nova especificação foi chamada XHTML e tornou-se uma recomendação W3C em 1999. A partir de então várias especificações adicionais foram criadas focando em aspectos e módulos específicos do padrão. A especificação XHTML 1.0 é basicamente uma estruturação da especificação HTML 4.0 em XML. A criação de uma nova especificação, XHTML 2.0, está em andamento focalizando os problemas existentes na especificacão 1.0 atual. Essa nova especificação é ainda o alvo de muitas discussões veementes entre os vários grupos relacionados na Web. Infelizmente, como no caso do HTML 4.0 e CSS 2.0, o suporte do XHTML nos navegadores é ainda muito incompleto.

Como se pode ver acima, a implementação de padrões Web está longe de ser uma unanimidade entre os criadores de ferramentas para a mesma. Apesar disso, nos últimos dois anos o suporte a esses padrões vem se tornando uma preocupação cada vez maior dos vários grupos envolvidos, embora as implementações estejam longe de oferecerem uma base perfeitamente comum. Na verdade, é possível que isso nunca aconteça totalmente, embora o suporte possa chegar a um nível praticamente idêntico entre as ferramentas. Apesar dessa situação, a adoção dos padrões possui muitas vantagens. Essas vantagens serão analisadas adiantes, juntamente com as desvantagens que ainda existem. Um dos propósitos aqui é mostrar também que as vantagens superam de longe as eventuais desvantagens na adoção dos padrões.

A necessidade dos padrões Web

Embora a situação de implementação dos padrões seja bastante complicada atualmente, a necessidade da adoção dos mesmos é patente. O crescimento exponencial da Web tem criado muitos desafios que somente esses padrões são capazes de responder. Algumas pessoas acreditam que os padrões Web são limitadores. A verdade é que eles removem grande parte da dificuldade do desenvolvimento dando maior flexibidade ao desenvolvedor e produtor Web, permitindo que as pessoas possam realmente exercer a sua criatividade ao mesmo tempo em que forjam elos de comunicação.

Um dos sonhos dos criadores da Web é a Web Semântica, proposta por Tim Berners-Lee, que consiste em documentos organizados de tal forma que facilitem a coleta, pesquisa e cruzamento de informações de maneira automática e baseada no significado real do conteúdo desses documentos ao contrário da simples pesquisa por palavras-chave que é realizada pelas atuais ferramentas de busca. Embora muitas pessoas tenham dúvida quando à criação da Web Semântica, ninguém tem dúvidas de que a mesma dependerá muito da aplicação de padrões compreensíveis tanto para pessoas como para máquinas.

Muitos dos usos da Web hoje só são possíveis por causa da utilização de padrões quer permitem o compartilhamento fácil de informações. Além disso, o futuro obviamente trará muitas outras possibilidades que só serão realizáveis se houver um certo grau de conformidade.

Vantagens dos padrões Web

Existem diversas vantagens na aplicação dos padrões Web. Algumas dessas vantagens estão explicadas e exemplificadas abaixo. Elas não são, de maneira alguma, totalmente inclusivas. Outras vantagens se tornarão evidentes em outros artigos à medida que os aspectos práticos dos padrões forem explorados.

Uniformidade

A primeira vantagem da utilização de padrões é a uniformidade. Isso quer dizer que documentos criados segundo os padrões Web podem utilizar uma estrutura comum, facilitando a manipulações dos mesmos. Uma estrutura comum permite que modificações tais como inserções e remoções de conteúdo ou movimentações estruturais podem ser realizadas de maneira simples, sem a necessidade de aplicações complexas. A uniformidade permite que documentos possam ser manipulados através de um conjunto reduzido de aplicações, transformações e mecanismos de apresentação.

Para um exemplo específico, um site contendo vários documentos pode fazer uso de uma única folha de estilo para formatar os mesmos para exibição. Isso só é possível se os documentos forem o mais uniformes o possível. Um outro exemplo é quando os documentos precisam ser transformados para uso em outro ambiente. A uniformidade permite que isso seja feito em um número reduzido de passos comuns.

Simplicidade

Uma outra vantagem da utilização dos padrões é a simplicação dos documentos. Essa vantagem é muito similar à uniformidade, mas compreende realmente a eliminação de elementos desnecessários. Nesse sentido é um retorno à utilização do HTML para a simples estruturação dos documentos, ignorando inicialmente a apresentação dos mesmos, que pode ser aplicada depois de diversas formas. Documentos criados com os padrões tendem a apresentar uma economia de marcação que permite maior flexibidade na utilização dos mesmos, seja diretamente em navegadores ou na transformação para outros usos. A simplicidade dos documentos também resulta em melhores tempos de acesso, uma necessidade ainda muito premente da Web atual.

Um exemplo próprio das vantagens da simplicidade é quanto aos mecanismos de busca. Documentos simples podem ser indexados mais facilmente e normalmente recebem maior relevância nas buscas.

Liberdade

Os padrões Web permitem também a liberdade de estruturação e inovação por não serem controlados por uma empresa específica. Isso permite que sejam utilizados por qualquer pessoa em qualquer lugar, sem a necessidade de pagar ou fazer algo pelo privilégio. Essa liberdade permite também uma maior facilidade na movimentação de informações e evita que as mesmas se tornem obsoletas. Um documento criado através dos padrões Web, por causa da própria estrutura destes, estará sempre aberto à movimentação na direção de outros padrões e sistemas futuros. Formatos proprietário (especialmente os binários) tornam as pessoas e empresas dependentes das ferramentas que os manipulam e as prendem a essas ferramentas e formatos. Os padrões Web, criados especialmente para o compartilhamento de informações, desencorajam tais práticas e evitam os problemas resultantes das mesmas.

Separação de estrutura e apresentação

Essa é talvez a maior vantagem na utilização dos padrões. A utilização correta dos mesmos permite separar quase que completamente a estrutura da apresentação. Isso significa que o documento fica restrito ao seu conteúdo, sem especificar qualquer forma de apresentação, permitindo que esta seja modificada de acordo com as necessidades. Assim, o documento permanece o mesmo, embora possa ser usado em diferentes ambientes como navegadores, sintetizadores de fala, e geradores de documentos Braille. A correta separação da estrutura da apresentação permite uma maior flexibilidade na utilização do documento.

Por exemplo, um determinado documento pode ser exibido de uma certa forma em um navegador e modificado significativamente para a impressão através da remoção de navegação (denecessária em documentos impressos), expansão de abreviações e links (que não são apropriadamente mapeados nesse tipo de mídia) e execução de outras transformações que permitem que o documento seja mais facilmente utilizado em uma situação diferente. Essa vantagem será melhor ilustrada de maneira prática em artigos posteriores.

Facilidade de criação

O uso de padrões também torna mais fácil a criação dos documentos já que não é necessário preocupar-se inicialmente com a apresentação dos mesmos, livrando o criador do documento para pensar apenas no conteúdo do mesmo. Como dito anteriormente, quase qualquer tipo de layout pode ser criado a partir de CSS e isso permite que essa etapa da construção de sites seja realizada independentemente do desenvolvimento de conteúdo. Obviamente, há cuidados necessários para permitir essa flexibilidade e esses cuidados serão vistos em artigos posteriores. O criador fica, também, livre do peso do uso de editores específicos. O conteúdo pode ser editado em qualquer processador de textos e posteriormente estruturado. Uma vez estruturado ele poderá ser exibido através da formatação apropriada anexada ao mesmo.

Acessibilidade

Outra das grandes vantagens da utilização dos padrões é a acessibilidade. Em termos de padrões Web isso significa não só permitir que pessoas com deficiências físicas tenham acesso à Web, mas também capacitar a utilização das páginas por e em outros tipos de ambientes que não um navegador. Isso inclui navegadores de voz, que lêem páginas Web em voz alta para pessoas com dificuldades ou impossibilidade de visão; navegadores Braille que traduzem as páginas nesse alfabeto; aparelhos com pequeno espaço de exibição e outros aparelhos de saída que não tão usuais. Isso evita a duplicação de conteúdo e facilita a utilização geral dos documentos. A acessibilidade auxilia também pessoas que não possuem deficiências físicas melhorando a manipulação das páginas por teclas de atalho e outros métodos.

Um interessante efeito colateral da acessibilidade, que demonstra a sua vantagem, é visto na simplicação das páginas de modo que um dos maiores usuários de sites Web, que é cego, possa ter um acesso melhor às mesmas. Esse usuário é o Google, o mecanismo de busca mais utilizado atualmente. Páginas acessíveis permitem que o Google indexe melhor as mesmas permitindo que o site ganhe eventualmente um melhor posicionamento em buscas.

Extensibilidade

Uma outra vantagem dos padrões Web, ainda que indireto, é a extensibilidade. Ela permite que documentos criados com os padrões agreguem informações adicionais que podem ser separadas quando não são necessárias. Um dos motivos da criação do XHTML foi justamente esse. Embora os navegadores atuais ainda tenha problema com a especificação, a utilização da mesma atualmente é uma boa maneira de preparar documentos para usos imprevistos no futuro.

Estabilidade

Também uma vantagem da aplicação dos padrões, a estabilidade significa que os documentos feitos sob os mesmos permanecerão compatíveis tanto para frente como para trás. Isso quer dizer que tais documentos serão capazer de "degradar graciosamente" em ambientes com suporte limitado aos padrões produzindo um resultado visual aceitável e completo acesso ao conteúdo. Um exemplo disso são sites que possuem uma rica exibição em navegadores visuais mais modernos, mas podem ser completamente acessados em navegadores de modo texto, como o Lynx, ou navegadores com suporte fraco aos padrões, como o Netscape 4. Sendo também direcionada ao futuro, a estabilidade permite que documentos existentes atualmente permanecerão passíveis de utilização muitos anos no futuro, em ambientes ainda a serem criados.

Outro ganho da estabilidade é na manutenção de documentos. Muitas vezes um determinado site pode passar por várias equipes durante sua vida útil. A estabilidade dos documentos através dos padrões Web permite que um site possa ser compreendido e editado por qualquer grupo necessário sem necessidade de esforços excessivos.

Desvantagens dos padrões Web

Embora as vantagens da adoção dos padrões Web sejam grandes, existem também algumas desvantagens aparentes que podem desencorajar o desenvolvedor Web a torná-los parte de seu arsenal de ferramentas. Algumas dessas desvantagens são apresentadas abaixo juntamente com razões para não levá-las em conta como impedimentos.

Implementações discordantes

A maior dificuldade na utilização dos padrões Web atualmente está na existência de implementações discordantes dos mesmos. Isso aumenta substancialmente a complexidade da criação de documentos que podem ser utilizados indistintamente em qualquer ambiente Web.

O maior problema nesta área está na especificação CSS. O nível de suporte à mesma é absurdamente diferenciado. A maioria dos navegadores suporta a especificação 1.0, embora muitos de maneira parcial. A especificação 2.0 ainda não é suportada completamente em nenhum navegador embora muitas de suas características existam na maioria deles. E a especificação 3.0 -- até compreensivelmente, já que não é uma recomendação W3C -- só é suportada, e ainda assim parcialmente, em um dos grandes navegadores em uso no mercado. Para piorar a situação, as empresas e grupos desenvolvendo navegadores e ambientes hipertexto hoje dificilmente concordam em como implementar uma determinada característica nos seus produtos. Um determinado atributo CSS normalmente é renderizado de maneira muito diferente em cada um dos navegadores visuais em existência hoje. Um outro grande problema está na diferença entre os modelos de unidade de medição dos elementos entre os navegadores Web que gera um série de complicações na exibição das páginas. Adicionalmente, erros de implementação também atrapalham a vida de desenvolvedores.

O suporte XHTML também é muito incompleto nos navegadores e seu uso ainda é muito restrito por parte dos desenvolvedores. Muitos navegadores, por causa de sua herança, tendem a ler documentos Web como se os mesmos fossem uma sopa de elementos, sem se preocupar com a validade ou ordenação dos mesmos. Esse comportamento tem suas raízes na explosão do uso de ferramentas automatizadas no início da Web para a criação de documentos que permitiam a qualquer pessoa gerar sites sem se preocupar com os padrões envolvidos. Isso forçou os navegadores a lerem qualquer tipo de documento, independentemente de sua validade, para evitar a perda de mercado.

Apesar dessa situação, existem algumas ténicas que limitam os problemas de implementação e permitem uma boa utilização dos padrões. Isso permite ganhar todas as vantagens dos mesmos, embora à custa de algumas dificuldades iniciais. Além disso, o suporte aos padrões tem melhorado cada vez mais e a necessidade de utilizar tais técnicas vem sendo reduzida.

Aumento da complexidade inicial

Uma outra desvantagem da aplicação é o aumento da complexidade inicial na criação dos documentos. Isso pode parecer contraditório em relação à vantagem da simplicidade citada anteriormente, mas na realidade não é. Esse desvantagem só existe inicialmente, quando os criadores de documentos estão fazendo uma transição para o uso de padrões. Assim, mesmo que essa desvantagem desapareça com o tempo ela implica em necessidades de treinamento e esforço inicial. Entretanto, esse custo deve ser pago, direta ou indiretamente, se as vantagens futuras dos uso de padrões são esperadas. Obviamente, a longo prazo as vantagens compensam essa complexidade inicial. Isso é o que deve ser mantido em mente quanto aos padrões.

Conclusão

Espero que as considerações acima tenham demonstrando a validade da utilização dos padrões Web. Estes não são só necessários como também resultam em várias vantagens para os desenvolvedores, produtores e usuários da Web. Essas vantagens compensam os eventuais problemas criados pelas incompatibilidades de implementação e permitem que as pessoas exerçam maior liberdade quanto à criação e compartilhamento de informações.

No próximo texto serão abordadas algumas ferramentas de desenvolvimento para o auxílio na aplicação dos padrões.

Quaisquer comentários, dúvidas, correções, sugestões ou adições poder ser encaminhados para o email mtblog@reflectivesurface.com, ou, no caso desse artigo específico, comentados na entrada correspondente em meu weblog.